Quem descobriu o Largo? Sabe-se quem descobriu o caminho marítimo para a Índia-e não foi o Vasco da Gama de certeza-, sabe-se quem descobiu as Almorróidas-claro, todos sabemos, foi Ibn Almorroidal, no século IX-, e sabe-se também quem descobriu a Vácina-foi o sobrinho do Ratola, que nos dizia, vindo do carreiro que separa a casa dos pais do referido roedor do principal jardim do Largo: " ali tem vácinas"...eram as gringas, que algum amante da perfuração de veias tinha ali deixado.
Mas afinal quem descobriu o Largo?
A minha teoria é que o Largo não foi descoberto, mas inventado. Pode ser polémica esta afirmação, mas eu sustento-a.
Antes do Largo ser uma realidade nas nossas vidas, havia o "aquecedor", onde paravam alguns habitantes mais novos das casas próximas ao Largo. O "aquecedor" fica situado bem próximo à casa do Carolo e do Engenheiro Agrónimo e Professor Universitário Pedro Alves, do outro lado da estrada, em frente ao Jardim das Vácinas, ou Jardim do Largo.
As brincadeiras eram inocentes, pouco se fumava, a maconha ainda não tinha sido descoberta e os meios de transporte eram, maioritariamente, os bitorinos e o os autocarros.
O tempo ía passando, e do outro lado da Engenheiro Carlos Amarante íam passando, e imbentualmente parando junto ao aquecedor, outros moradores do Bairro, de ruas mais distantes do Largo:Bombas, João Martins, Zé Miguel, entre outros.
Eis que chegam as cigarradas, o cannabis, os primeiros carros, as primeiras motas. Houve a necessidade de um espaço mais amplo, que, por um lado suportasse toda uma logística-potentes motos e carros- e, por outro, constituísse um local mais reservado, pelo menos aos ouvidos e olhares dos familiares mais velhos de alguns elementos-Carolo e Rosário, Pedro Orelha, o nosso Angrónomo, e Pedro Galinhas eram os mais expostos.
Assim, o Largo era a solução natural-amplo, lugares para estacionamento, reservado, longe de quase todas as casas e, ainda por cima, dotado de um belo campo de futebol, que eu proponho que batizemos como Campo Desportivo Manuel das Petas. Ali se praticaram, entre outras modalidades, o futebol, as escondidas, a sueca, a malha e algumas Brincadeiras-de-Homem-Coice-de-Mula como o "aguenta comigo real camarada", peões e cavalinhos de mota, o "nem mais um" e um desporto único no mundo ali criado: o arremeso do torrão de terra, de efémera existência, pela violência registada nos primeiros dias: vidros partidos-que daria origem ao cognome "Semanadas", e olhos quase cegos.
Assim nascia o Largo, cuja população foi crescendo de forma desordenada, e que na sua época áurea podia acolher-salvoseja- cerca de 30 homens e mulheres, 10 carros e outras tantas motas. Mas não se julgue que o Largo era uma feira de vaidades. O largo era a nossa casa, o nosso lar. Passávamos mais horas ali do que em casa, porque nos sentíamos bem, melhor do que em casa, que na realidade era dos nossos pais. O Largo era nosso e não dos nossos pais. Ir ao Largo era, verdadeiramente, ir para casa.
Foi a minha versão do aparecimento do saudoso Largo...